Jornalista desembolsa quantia para virar executivo da marca e aponta superficialidade das aulas e dúvidas sobre entrega dos veículos
Tornar-se um executivo de vendas de uma montadora nacional exige um investimento de R$ 459 e cerca de trinta minutos de dedicação em frente ao computador. Esta é a premissa oferecida por Flavio Figueiredo Assis, empresário apelidado de "Elon Musk brasileiro", para atrair representantes para a Lecar. A empresa, fundada em 2022, promete fabricar carros híbridos flex em uma unidade em Sooretama, no Espírito Santo. O Jornal do Carro realizou a inscrição e concluiu o treinamento para verificar a consistência do modelo de negócios.
O processo de credenciamento ocorre inteiramente online, sem necessidade de análise de crédito, aceitando pagamentos via Pix ou boleto. O valor cobrado faz alusão ao modelo Lecar 459, um cupê híbrido que a companhia afirma que irá produzir. O curso é estruturado em oito módulos rápidos e conta com apresentações da cúpula da empresa, incluindo o próprio fundador, o CTO Kauê Carvalho e o vice-presidente Rodrigo Rumi.
Como funciona a formação da lecar
A profundidade do conteúdo ministrado chamou a atenção pela brevidade. Todo o material, somado à avaliação final de 12 questões, consome pouco mais de 40 minutos. No módulo destinado a explicar o funcionamento das concessionárias da marca, a explanação durou menos de dois minutos, repetindo informações já disponíveis na imprensa.
O fundador defende o baixo custo para os franqueados em comparação ao mercado tradicional. "Ter a bandeira de uma marca pode custar até R$ 5 milhões. Porém, no momento, nosso custo (…) fica em torno de no máximo 10% do valor de uma bandeira tradicional".
Durante as aulas, são apresentadas maquetes dos veículos, como a picape Campo e o cupê 459. O objetivo declarado é a inovação no uso de combustíveis vegetais. "Nascemos com o propósito de popularizar o uso do etanol no mundo através de nossos carros híbridos flex".
Modelo de vendas e comissões prometidas
A estratégia comercial da Lecar baseia-se na chamada "compra programada". O cliente começa a pagar pelo veículo com a promessa de recebê-lo na metade do plano. Especialistas e fontes do setor automotivo alertam que essa modalidade se assemelha a um consórcio, porém sem a devida regulação do Banco Central, o que gera riscos de ser enquadrada como operação financeira irregular.
Para os vendedores recém-formados, a atração reside na tabela de comissões progressivas. Os ganhos iniciam em R$ 1.800 por unidade para quem fechar até cinco negócios, subindo para R$ 11 mil para quem ultrapassar a marca de onze vendas. O pagamento dessas comissões é atrelado à confirmação das primeiras prestações pagas pelo comprador.
Sobre a relação entre vendedores e concessionárias, a empresa afirma seguir a Lei Ferrari. O sistema prevê que o executivo de vendas atue em parceria com a loja física mais próxima do cliente, dividindo responsabilidades. "Em caso de venda direta, se a fabricante entrar em acordo com a rede, definir uma comissão para que o concessionário sirva como um suporte no negócio, não há problema algum nessa prática", explica o consultor automotivo Murilo Moreno.
Dúvidas sobre a fábrica e produtos
Apesar das promessas de autonomia de 1.000 km com 30 litros de etanol, a realidade física dos produtos ainda é incerta. Até o momento, apenas simulacros e maquetes foram apresentados, sem carros homologados ou testados publicamente. As informações técnicas fornecidas no curso foram consideradas vagas, inferiores ao que se encontra em pesquisas online.
O vice-presidente da companhia defende a tecnologia empregada. "Essa tecnologia une eficiência, sustentabilidade e inovação nacional, levando o nome do Brasil para o futuro da mobilidade".
Quanto à infraestrutura fabril, o projeto em Sooretama permanece no papel, embora seja descrito como uma planta moderna com capacidade para 120 mil veículos anuais. A rede de assistência técnica, segundo o treinamento, será terceirizada em locais onde não houver nomeação de concessionários próprios.
Após a conclusão da prova, que pôde ser respondida com consultas ao Google em poucos minutos, e o pagamento da taxa, o acesso ao sistema de marketing foi liberado. Contudo, não houve qualquer contato adicional, e-mail de boas-vindas ou instruções de suporte por parte da empresa, deixando o novo "vendedor oficial" à própria sorte.