Levantamento inédito mapeia o fluxo de consumidores em 2025 e aponta como as fabricantes asiáticas avançaram sobre a participação de mercado de marcas tradicionais e de luxo
As montadoras chinesas consolidaram uma estratégia agressiva de conquista de mercado no Brasil ao longo de 2025, ultrapassando marcas históricas em volume de vendas. A BYD superou a barreira dos 100 mil carros vendidos, enquanto a GWM registrou mais de 41 mil emplacamentos. A novata Omoda Jaecoo, com operações iniciadas em abril, somou 7.219 unidades comercializadas. Os números da Fenabrave serviram de base para um estudo exclusivo da MegaDealer em parceria com a Auto Avaliar, que identificou a origem desses novos clientes.
Os dados apontam que a movimentação de consumidores não foi uniforme. Enquanto a BYD focou em proprietários de veículos de entrada e grande volume, GWM e Omoda Jaecoo miraram segmentos de maior valor agregado, impactando diretamente a Jeep e o setor premium.
Estratégia de volume da BYD
A expansão da BYD apoiou-se na captação de clientes de marcas com grande participação de mercado. A análise indica que modelos como Dolphin e Dolphin Mini foram decisivos para atrair donos de hatches flex, como Chevrolet Onix, Hyundai HB20 e Volkswagen Polo. No primeiro trimestre de 2025, a Hyundai liderou a "doação" de clientes, representando 11,3% do fluxo migratório para a chinesa.
O cenário mudou a partir do segundo trimestre, quando a Volkswagen assumiu a liderança entre as marcas que mais perderam consumidores para a BYD, saltando de 11% naquele período para 11,6% no quarto trimestre. A Chevrolet manteve-se constante como segunda ou terceira maior fonte de captação, encerrando o ano com índice de 10,7%.
Ari Kempenich, diretor de consultorias e análise de Big Data da MegaDealer, ressalta que o impacto nessas montadoras é amortecido pelo alto volume que possuem.
“Hoje, mais ou menos 40% das pessoas trocam de carro dentro da própria marca. Dos 60% que buscam marcas novas, é natural que muitos deixem montadoras tradicionais como Volkswagen e Chevrolet”
Impacto severo na Jeep
A situação mostra-se mais delicada para a Jeep. A marca norte-americana, que detém cerca de 6% de participação, sofreu ataques simultâneos em seu principal nicho: os SUVs. A GWM posicionou-se como a principal rival, visando proprietários de Compass e Commander. O pico dessa migração ocorreu no segundo trimestre de 2025, quando quase 20% dos novos clientes da GWM vieram da marca da Stellantis.
A falta de renovação profunda no portfólio da Jeep facilitou essa transferência. Kempenich explica a dinâmica de troca.
“A Jeep tem um portfólio com SUVs em primeiro plano. Assim, é natural que um cliente da marca com um SUV de três, quatro anos de uso acabe migrando para a BYD ou para a GWM”
O analista reforça a importância do fator novidade no mercado automotivo.
“Há alguns anos, Compass e Commander eram essas novidades. Hoje é o BYD Song Plus, os Haval H6 e H9, o Omoda 5, o Jaecoo 7 e por aí vai”
A Omoda Jaecoo também concentrou seus esforços nesse público. Em seus dados consolidados do quarto trimestre, a Jeep aparece como a principal origem de seus compradores, com 14,8%, seguida pela Volkswagen com 11,2%.
Migração no segmento premium
Um fenômeno classificado como crítico pelo estudo é a saída de clientes de marcas de luxo tradicionais, como BMW, Volvo, Audi e Mercedes-Benz, em direção às chinesas. Embora os volumes absolutos sejam menores, o impacto proporcional é devastador para marcas com baixa participação de mercado.
No caso da Omoda Jaecoo, essas quatro marcas premium somadas representaram quase 7% dos novos clientes no último trimestre do ano. Para a GWM, a migração vinda apenas da BMW oscilou entre 2,1% e 2,7%. Kempenich observa a relação custo-benefício que motiva essa troca.
“Marcas premium, como BMW, Volvo, Audi e Mercedes-Benz também tem sofrido, pois a conquista tem sido maior que o market share histórico das marcas. Um cliente que comprava um BMW de R$ 400 mil agora compra um chinês com bom número de itens por um preço menor"