Fim gradual da tarifa de importação promete baratear veículos de luxo e peças mas especialistas alertam para riscos à produção nacional e triangulação chinesa

A recente formalização do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, ocorrida no dia 9 de janeiro após 25 anos de negociações, estabelece novas diretrizes que transformarão o mercado automotivo nacional. A principal mudança reside na eliminação da alíquota de 35% cobrada atualmente sobre veículos importados do continente europeu. O tratado prevê que essa tarifa seja zerada de maneira escalonada: em 15 anos para modelos a combustão e em 18 anos para os eletrificados.

Essa abertura comercial impacta diretamente a estrutura de custos de peças e componentes, que também terão isenção tarifária. A medida beneficia montadoras como a BMW, que mantém fábrica em Araquari (SC) e depende de itens europeus. Uma consequência estratégica observada é a possibilidade de triangulação por parte de fabricantes asiáticas. A chinesa BYD, por exemplo, poderá importar kits de sua futura unidade na Hungria, prevista para operar este ano, usufruindo de imposto zero. Atualmente, a importação de conjuntos desmontados (CKD) ou semidesmontados (SKD) da China é taxada entre 16% e 18%.

Impacto nos preços do segmento premium

Especialistas consultados pelo Jornal do Carro indicam que a redução de preços será mais perceptível em marcas de alto padrão como Audi, Mercedes-Benz, Volvo e Jaguar Land Rover. O diretor executivo da consultoria K.Lume, Milad Kalume Neto, projeta um aumento na oferta de importados.

"Minha expectativa para o curto prazo (cinco anos) é recebermos mais carros europeus concentrados no segmento de luxo ou acima de R$ 150 mil"

A perspectiva é compartilhada pela Bright Consulting, embora condicione a velocidade dessa mudança aos cronogramas de desoneração a serem definidos. O CMO da empresa, Cássio Pagliarini, avalia a tendência de mercado.

"Com a carga atual, a redução de preços para importados é o caminho natural"

Riscos para a indústria local

A facilidade de importação levanta preocupações sobre a viabilidade das linhas de montagem de veículos premium no Brasil. O consultor sênior da S&P Global, Fernando Trujillo, alerta para a possibilidade de as marcas priorizarem a importação em detrimento da produção local devido à complexidade tributária brasileira e à escala europeia.

"Com maior escala na Europa e uma carga tributária complexa no Brasil, os veículos importados chegarão muito competitivos"

Existe um desequilíbrio na balança comercial do setor, conforme aponta David Wong, sócio da Alvarez & Marsal. A produção nacional foca em modelos de entrada com pouca demanda na Europa, ao passo que os europeus fabricam os veículos de luxo desejados no mercado brasileiro.

"Produzimos carros de entrada que pouco interessam à Europa, enquanto os produtos europeus de alto padrão se encaixam perfeitamente no nosso mercado"

A estratégia das marcas chinesas na Europa

O acordo abre portas para que montadoras como GWM e BYD utilizem suas bases europeias para exportar ao Brasil sem tarifas. A BYD investe 4 bilhões de euros em um complexo na Hungria, que produzirá veículos completos, baterias e chips a partir de 2026. Fernando Trujillo destaca a atenção necessária aos investimentos chineses no bloco europeu.

"É preciso atenção aos investimentos chineses na Europa, que tornariam essas empresas aptas a exportar para o Brasil com taxa zero"

Para mitigar eventuais danos irreversíveis à indústria instalada no Brasil, o acordo contempla uma cláusula de salvaguarda. A cooperação comercial poderá ser suspensa por um período de até cinco anos caso fique comprovado prejuízo à produção local. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou que ainda estuda os impactos do texto final.

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