Especialista esclarece mitos sobre segurança de veículos eletrificados durante tempestades e alerta para riscos reais no momento da recarga

O Brasil lidera o ranking mundial de incidência de descargas atmosféricas, registrando mais de 77,8 milhões de raios anualmente. O fenômeno, responsável por cerca de 110 mortes por ano no país segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, levanta preocupações específicas entre os motoristas diante da popularização da eletrificação da frota. A dúvida sobre a vulnerabilidade dos veículos a bateria durante tempestades foi esclarecida em reportagem do Jornal do Carro, que consultou Wanderlei Marinho, engenheiro membro do Comitê de Veículos Elétricos e Híbridos da Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE) Brasil.

Diferente do senso comum, os carros elétricos não atraem mais raios nem são mais perigosos que os modelos a combustão. A segurança dos ocupantes é garantida por um princípio físico conhecido como gaiola de Faraday. A estrutura metálica da carroceria atua como um condutor que distribui a descarga elétrica pela parte externa e a direciona para o solo, impedindo que a eletricidade penetre no habitáculo.

Marinho detalhou o funcionamento da proteção. "Quando um raio atinge um carro elétrico, a descarga elétrica percorre a superfície metálica da carroceria e é conduzida ao solo. O interior do veículo permanece protegido, porque a corrente elétrica não entra no habitáculo."

Integridade da bateria e componentes eletrônicos

Um dos maiores temores envolve a possibilidade de explosão das baterias de alta tensão. Tecnicamente, esse risco é considerado extremamente improvável devido à construção desses componentes, que são encapsulados e isolados eletricamente com múltiplas camadas de segurança.

O engenheiro da SAE Brasil reforçou a segurança do sistema de armazenamento de energia. "O raio não entra diretamente no circuito interno da bateria. O maior risco é dano eletrônico, não explosão."

Embora a integridade física dos passageiros seja preservada, o veículo pode sofrer avarias materiais. A descarga pode causar a queima de módulos eletrônicos, danos em antenas, sistemas de multimídia e falhas na pintura ou nos pneus no ponto de contato com o solo. Em situações severas, sistemas críticos podem ser afetados, paralisando o automóvel.

O risco real da recarga durante tempestades

O cenário muda drasticamente quando o veículo está conectado a um eletroposto. Diferente da condução sob chuva, o ato de recarregar a bateria durante uma tempestade com raios apresenta perigos concretos devido à conexão física com a rede elétrica, que pode conduzir a descarga para o carro.

O especialista alertou para a conduta correta nestes casos. "O risco aumenta. O raio pode entrar pela rede elétrica do eletroposto e atingir o veículo. A recomendação é não recarregar durante tempestades com raios."

Além de danificar o veículo, surtos de tensão podem comprometer transformadores e o próprio carregador, uma vez que nenhum dispositivo de segurança é totalmente infalível contra a potência de um raio.

Estruturas conversíveis e recomendações de segurança

A eficácia da proteção diminui em veículos que não possuem teto totalmente metálico. Carros conversíveis com capota de tecido ou modelos com teto solar de vidro apresentam uma gaiola de Faraday reduzida em comparação aos modelos convencionais.

Para garantir a segurança máxima durante tempestades, a orientação é permanecer dentro do veículo, evitando contato com partes metálicas ligadas à carroceria e mantendo vidros fechados. Sair do carro em áreas abertas aumenta significativamente a exposição ao risco.

Marinho concluiu sobre a percepção de perigo associada à tecnologia elétrica. "Não. Do ponto de vista técnico, carros elétricos são tão seguros quanto veículos a combustão durante tempestades."

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